Quando fotografei meu primeiro cometa: C/2020 F3 Neowise

São as pequenas coisas que valem mais.

O ano era 1986 e eu tinha 11 anos.

Por semanas, talvez meses, a TV alardeou a suposta passagem de um tal cometa Halley, o qual nos visita a cada 75 ou 76 anos.

Houve um certo “frisson”; uma espécie de hiperexpectativa coletiva: se vendia de tudo com o tema Halley, de camisetas e bonés, até inutilidades que continham a estampa do mesmo.

Desde algum tempo antes, provavelmente antes mesmo dos meus 6 anos de idade; folheando repetidamente as páginas dos 12 volumes da enciclopédia “Delta Júnior” que tínhamos em casa graças às preocupações educacionais da minha mãe; duas coisas me encantavam: Dinossauros e Cometas.

Eu viajava naquela imaginação infantil sobre como seria ver um dinossauro ou um cometa.

Coisa de criança.

Mas então, já que dinossauros seriam impossíveis, ali estaria o Halley para me levar ao ápice da minha existência.

Entrei, claro, na mesma empolgação de todo projeto de nerd.

A ansiedade era grande.

Não existia internet para me abarrotar de informações sobre o Halley.

O único jeito era assistir a todos os jornais televisivos em busca de uma mera nota sobre o cometa.

Enfim chegou o mês de fevereiro de 1986, quando supostamente o cometa estaria visível a olho nu para todos os seres humanos.

Me lembro de ficar acordado até tarde olhando para o céu escuro em busca daquele sonho. Nada. Nem uma fumacinha. Nem uma silhueta de algo que pudesse se parecer com aquilo que a mídia havia me vendido.

Me lembro que choveu por algumas noites e eu fiquei desesperado, pois o cometa poderia estar ali no céu, acima de mim, com todo seu esplendor e as nuvens de chuva me impedindo.

Me lembro até da dor no pescoço, de tanto ficar olhando para o alto em todas as direções.

Até que por misericórdia, a mídia fez o anúncio: O Halley não será visível a olho nu.

Minha frustração foi tão grande, que passei algum tempo sem sair para brincar. Quase adoeci.

Fiquei calculando se seria possível viver até 86 ou 87 anos para, quem sabe, vê-lo na oportunidade seguinte.

Desanimei.

Desisti e enterrei o sonho infantil de ver um cometa.

Eis que mais de 30 anos se passaram e agora, a mídia alardeou novamente outro cometa; o C/2020 F3 Neowise.

Recém descoberto, não teria o suposto brilho e glamour do sacana do Halley.

Os astrônomos afirmaram que só seria visível a olho nu no hemisfério norte.

Foi pesquisando o preço de passagem aérea para o Marrocos é que descobri o quanto o não avistamento do Halley tinha me marcado.

Pois é… cheguei a pensar em ir ali, no Marrocos para finalmente observar um cometa, o Neowise.

Mas estamos no meio duma pandemia.

O $$$ não está sobrando e como pai de família, seria caso de internação psiquiátrica, caso eu saísse por aí atrás de um cometa.

Tudo bem não ver mais este cometa… já desisti mesmo. Só sobrou aquela vontade escondidinha lá no fundo da alma.

Mas então, menos de uma semana atrás, alguém disse sem muita certeza: O cometa Neowise poderá sim ser avistado no Brasil, numa janela curta de tempo e em condições adequadas.

Lá vou eu de novo, me encher de esperança em realizar o sonho de menino.

Li tudo que foi possível a respeito.

Estudei a latitude e o relevo aqui da minha região.

Defini o local onde eu estaria e quando e para onde deveria fixar os olhos.

Pelas informações menos imprecisas, a aparição de no máximo meia hora seria hoje, 24/07/2020, a partir das 18 horas.

E assim, lá estava eu, no meio do mato, olhando angustiado para noroeste, acompanhado do meu filho, de uma câmera fotográfica e um tripé.

O horizonte estava muito empoeirado. A visibilidade estava baixa.

À medida que o horário foi se aproximando, fui ficando incrivelmente ansioso e descrente.

Já tinha me preparado para mais uma decepção.

O sol se pôs.

A lua apareceu e com ela as primeiras estrelas.

O crepúsculo ainda persistia um pouco.

Nada de cometa.

Se passaram 25 minutos naquela observação silenciosa do nada.

Meu filho insinuou que seria melhor desistirmos e irmos embora.

Só insinuou, pois acho que ele percebeu que eu estava num momento só meu e que deveria ficar ali até o último resquício de esperança.

Hoje, todo o estudo e prática fotográfica que desenvolvi ao longo de anos me recompensou.

Sem aplicativo que me indicasse a posição do cometa; sem conseguir vê-lo a olho nu; comecei a disparar a câmera sequencialmente de oeste até norte; variando as configurações e também as posições de foco: ora mais próximo do horizonte, ora mais acima no céu.

Cada disparo, com cerca de 10 segundos de longa exposição.

Finalizada cada foto, eu olhava no visor da câmera o resultado, procurando por algum pontinho iluminado que pudesse ser o tal cometa.

Nada… nada por mais de 150 disparos, até que…………………….. PEGUEI!!!! PEGUEI!!! PEGUEI!!! – Eu meio que gritei.

Finalmente eu estava diante de um cometa.

Não podia vê-lo a olho nu, mas podia pegá-lo em minha câmera fotográfica, com base nos estudos e nas técnicas.

Me senti criança.

Me emocionei de verdade.

Uma bobagem.

Um tiozão da Sukita todo alegre no meio da poeira, com uma câmera apontando para um suposto céu vazio.

Um momento de realização pessoal.

Não importou que meus olhos não pudessem vê-lo.

Ele estava ali e eu podia capturá-lo.

Só um pontinho esverdeado com um rastro tênue de poeira esbranquiçada o seguindo.

É lindo. É mais grandioso do que eu havia imaginado.

Hoje pude entender o que move alguns cientistas que nos parecem malucos.

É a vontade enorme de tocar o inalcançável.

Hoje foi minha vez. Eu toquei o meu sonho de criança através do com meu pouco conhecimento. A espera acabou.

Obrigado Neowise. Eu não iria mesmo conseguir esperar o retorno do Halley.

Notas: Minha espera foi de 34 anos, 5 meses e 11 dias até conseguir capturar um cometa. O primeiro registro fotográfico conseguido, foi exatamente às 19:30:31 do dia 24 de julho de 2020.